"Troca de favores". Infantino instado a explicar-se ao Congresso sobre laços com Trump

"Troca de favores". Infantino instado a explicar-se ao Congresso sobre laços com Trump

O democrata Jamie Raskin, que integra o Comité de Justiça da Câmara dos Representantes, pretende que a FIFA destape eventuais registos de contactos com o presidente norte-americano, a Administração republicana ou negócios de família.

Carlos Santos Neves - RTP / Adicionar como fonte informativa
Mike Segar - Reuters

A controvérsia em torno da relação entre Gianni Infantino e Donald Trump continua a extravasar o calendário do Mundial de futebol, jogando-se agora nos corredores do Congresso dos Estados Unidos. Depois de o democrata Jamie Raskin, do Comité de Justiça da Câmara dos Representantes, ter denunciado o que entende ser um caso de “suborno explícito”, com epicentro na Casa Branca, o presidente da FIFA lançou-se contra os detratores e rejeitou “boatos falsos”.

“Não houve violência, nem incidentes; segurança total – 100% -, apenas alegria e felicidade!”
. A exclamação pertence a Gianni Infantino. Consta de uma mensagem publicada na segunda-feira, em 15 slides, na conta do presidente da FIFA no Instagram – e repercutida na conta do organismo que gere o futebol mundial.

A mensagem do número um da FIFA faz igualmente referência à polémica suscitada pelo caso da suspensão de um jogo aplicada ao atacante norte-americano Folarin Balogun. Decisão revertida pelo comité disciplinar da FIFA sem mais explicações.Trump afirmaria, na sequência da reversão, ter contactado Infantino com vista a pedir a revisão da suspensão de Balogun.

“É compreensível a insatisfação com algumas decisões tomadas pelas autoridades competentes, mas peço que consultem os registos públicos: tais decisões são comuns em algumas das ligas mais importantes”, escreveu Infantino.

“De facto, decisões arbitrais discutíveis ou decisões disciplinares estranhas - como, por exemplo, cartões vermelhos ou amarelos potencialmente equivocados ou decisões posteriores de não suspender jogadores em certas situações - são rotineiras e amplamente aceites em algumas das maiores ligas do mundo”, insistiu.

Justificações aparentemente insuficientes para demover o congressista democrata do Maryland Jamie Raskin, que quer ver o presidente da FIFA a explicar-se diante do Comité de Justiça da Câmara dos Representantes – objetivo dificultado, porém, pelo facto de os democratas serem a força minoritária.
“Troca de favores”
Raskin instou já Infantino a revelar ao Congresso “uma lista de quaisquer itens de valor (incluindo transferências de dinheiro, presentes, prémios, distinções ou aparições públicas) concedidos ao presidente Trump, a membros da sua Administração, a seus familiares ou a qualquer entidade associada a estes, como a Trump Organization”.

Recorde-se que Trump e Infantino mantiveram contactos próximos na antecâmara do Mundial, tendo mesmo sido atribuído ao presidente dos Estados Unidos, em 2025, o primeiro Prémio da Paz da FIFA. Uma distinção “ridiculamente falsa”, na avaliação de Jamie Raskin.

“Vocês alugaram um escritório no 17.º andar da Trump Tower - um espaço que poderia custar 600 mil dólares por ano no mercado - embora fosse utilizado apenas durante o período de 39 dias do Campeonato do Mundo. Isto equivale a mais de 15 mil dólares por dia. Estas ações parecem ter sido planeadas para induzir o presidente Trump e a sua Administração a tomarem decisões favoráveis à FIFA”, argumenta o legislador democrata, em carta remetida no passado domingo a Infantino.A carta de Jamie Raskin fixa o prazo de 9 de agosto para o fornecimento dos documentos pedidos e o agendamento do depoimento.


A carta de Raskin alude ainda à decisão, por parte do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, de “retirar as acusações” em investigações sobre alegada corrupção no futebol mundial, incluindo o processo desencadeado em 2015 contra mais de duas dezenas de altos quadros da FIFA e gestores de marketing desportivo.

“A sua eleição para a presidência da FIFA deveria ter marcado uma rutura definitiva - como um cartão vermelho - com uma cultura de corrupção e escândalos que perdurava há décadas e manchava a reputação do futebol mundial”, escreve Raskin na missiva, cujo teor é citado pelas agências e jornais internacionais.

“Em vez disso, logo no início da sua gestão, desmontou os mecanismos de salvaguarda ética da FIFA e neutralizou o comité de ética da organização ao afastar a maior parte dos seus membros. Essa falta de transparência e supervisão abriu caminho para que buscasse o favor da Administração Trump por meio de táticas que um professor de direito da Universidade de Nova Yorque e um ex-integrante do seu comité de ética descreveram como suborno legal”.

A mais recente troca de favores orquestrada pela FIFA e pelo presidente Trump não é um crime sem vítimas. Ela prejudica os americanos. A FIFA interpretou o status privilegiado que conquistou junto da Administração Trump como um sinal de que poderia explorar seus consumidores - notoriamente, ao empregar práticas ilegais de preços abusivos e táticas de venda fraudulentas para o Campeonato do Mundo”, acusa o congressista.

No decurso do Mundial, acumularam-se os problemas com o acesso de algumas equipas e adeptos à competição - Irão, Haiti, Senegal e Costa do Marfim foram exemplos. O capitão da seleção iraniana, Mehdi Taremi, resumiu mesmo o Mundial como um “desastre”. Recorde-se que a comitiva do Irão viu-se forçada a estabelecer o seu quartel-general no México.A par dos líderes de Canadá e México, Donald Trump juntou-se a Gianni Infantino para a entrega do troféu do Mundial, depois do triunfo da Espanha sobre a Argentina, na final. Foram ambos vaiados pelo público no estádio de Nova Iorque-Nova Jérsia.


A par do processo liderado por Raskin, decorre uma investigação dos procuradores-gerais de Nova Iorque, Nova Jérsia, Texas e Califórnia sobre os preços dos bilhetes para o Mundial.

O porta-voz da Casa Branca Davis Ingle veio já responder à carta do congressista democrata em comunicado divulgado pela publicação The Athletic, do New York Times: “O insignificante Jamie Raskin é a ideia que uma pessoa estúpida faz de uma pessoa inteligente. Nenhum outro presidente na história teria conseguido realizar a façanha histórica que o presidente Trump proporcionou ao povo americano e ao mundo”.

“Graças à sua visão ousada e liderança decisiva, o Campeonato do Mundo da FIFA de 2026 gerou milhares de milhões de dólares em receitas, impulsionou enormemente a economia das cidades-sedes e proporcionou uma experiência segura e tranquila para milhões de adeptos e atletas de todo o mundo. Sem dúvida, o evento ficará marcado na história como um dos maiores e mais bem-sucedidos eventos desportivos de todos os tempos”, rematou.
Tópicos
PUB